O impacto da mineração no Deserto do Atacama: como o turismo está se adaptando?
A região do Atacama é uma das maiores reservas de cobre e lítio em todo o mundo. Esses recursos naturais representam, ao mesmo tempo, um dos principais trunfos econômicos do país e uma enorme preocupação ambiental. E como um turista responsável, você precisa entender o real impacto da mineração no Deserto do Atacama.
Por isso, detalhamos abaixo como o processo de extração desses minérios está afetando o ecossistema do Atacama. E pior, como altera o ecoturismo e as paisagens que tanto amamos.



A mineração no Deserto do Atacama
Quem olha para o deserto mais árido do mundo, não imagina que ele esconde metais preciosos para a economia chilena.
Além de toda beleza fascinante, o Salar do Atacama é uma das principais fontes de lítio e cobre do mundo. Por isso, empresas se instalaram na região para extrair e exportar esses materiais.
E isso tem gerado uma grande dilema há anos:
Por um lado, a extração do cobre e do lítio representa uma grande oportunidade para o desenvolvimento econômico no país. Do outro, é o fator principal dos danos ao ecossistema e às comunidades locais.
Lidar com esse problema não é nada fácil !
Entenda o porquê disso e os efeitos dessa “vantajosa” extração de metais.
Principais recursos extraídos e seu impacto na economia chilena
Há muito tempo, o Deserto do Atacama desempenha um papel importante na extração de minerais no Chile. A exploração da área começou com o salitre, migrou para o cobre e hoje tem foco no lítio.
E por que o lítio?
O lítio é a principal matéria-prima das baterias de eletrônicos e veículos elétricos. E com o crescimento da tecnologia, a demanda pelo minério cresceu muito , elevando também seu preço.
Somente em 2022, o preço do lítio aumentou 400%. Com isso, as exportações do Chile passaram de 1,2 bilhão de dólares em 2021 para 8 bilhões em 2022, conforme o Banco Central.
E como o Chile é uma das maiores reservas do mineral (cerca de 41%) , possui grande vantagem competitiva nesse mercado. Inclusive, sua exportação representa, aproximadamente, 1/3 do lítio produzido no mundo.
Logo, consequências positivas surgem na economia:
- Em 2022, o lítio assumiu o 2º lugar no rol de exportações do país, atrás somente do cobre.
- O Chile arrecadou cerca de US$ 7,3 bilhões com as concessões dessa mineração, entre o ano 2012 e o terceiro trimestre de 2023.
- Em 2023, o lítio representou 5,3% das exportações.
Mas assim como os ganhos financeiros são expressivos, os danos ambientais e sociais também são exponenciais!
Impacto da mineração no Deserto do Atacama x ecossistema local
O processo de extração na mineração do lítio é altamente danoso ao meio ambiente e à comunidade ao entorno do Atacama.
Entre os estragos ambientais e sociais causados, estão: consumo excessivo e escassez de água, perdas na biodiversidade, degradação ambiental, êxodo de povos andinos, entre outros.
Como é o processo de extração do lítio no Atacama ?
A extração do lítio é feita a partir do bombeamento da salmoura no subsolo do salar. Após a evaporação, se produz uma substância bem concentrada. Esse material é transformado em carbonato de lítio e hidróxido de lítio – matéria-prima de baterias de íon para eletrônicos e equipamentos elétricos.
Ao ler isso, a extração não parece ser prejudicial. Mas a verdade é o contrário!
Durante a evaporação da salmoura, cerca de 90% da água é perdida para a atmosfera. Quando somamos isso às escavações para extrair água para produção de cobre, as quedas nos níveis das águas subterrâneas são bem expressivas. E pior, já começou a destruir a paisagem!
De acordo com estudos da Universidade do Chile, as extrações de salmoura para produção de lítio estão afundando o Salar do Atacama cerca de 1 e 2cm por ano.
E, infelizmente, esse é apenas um entre os vários danos ambientais causados pela extração de metais no Atacama.
Danos causados pelo impacto da mineração no Deserto do Atacama
A lista de impactos negativos da mineração no Atacama envolve várias frentes, afetando diretamente a qualidade de vida da comunidade local.
Consequências do impacto da mineração no Deserto do Atacama:
- Consumo excessivo de água
- Alto volume de resíduos e poluição
- Problemas de saúde nos trabalhadores
- Deslocamento de comunidades locais
- Mudanças nos ecossistemas e perdas na biodiversidade do Atacama
A seguir, explicamos melhor cada um deles!
Consumo excessivo de água em uma região extremamente seca
Tanto a extração do cobre quanto do lítio demandam elevadas quantidades de água na mineração. E o mais contraditório é que isso acontece no lugar mais seco do planeta.
Então, de onde vem a água da mineração no Atacama?
A água usada na mineração no Atacama vem do lençol freático, das camadas mais profundas do deserto, por meio de bombas. Serve para facilitar as operações das mineradoras, mas compromete o bioma da região.
Para começar, muita água é perdida durante a produção do lítio!
Segundo o Relatório da MiningWatch Canadá e Atlas de Justiça Ambiental, aproximadamente, 2 mil toneladas de água são evaporadas na produção de uma tonelada de lítio.
Logo, há um gasto excessivo de água durante a extração de metais. Isso impacta na quantidade e qualidade das reservas subterrâneas de água doce, além de:
- alterar o volume de chuvas
- mudar as estações de neve
- reduzir a biodiversidade
Alto volume de resíduos tóxicos
Em Chuquicamata, localizado no deserto do Atacama, a extração do cobre é feita através de rochas. Após esse processo, inicia-se a fundição da pedra, cuja temperatura atinge cerca de 200º C . Assim, é possível separar o cobre do sulfeto e dos óxidos que o metal possui. Depois, é refinado para exportação ou transformação em blocos concentrados.
Esse processo gera grande volume de resíduos , entre partículas e óxidos de enxofre. Isso pode contaminar a região de duas formas:
- Impacto direto: com os ventos do Atacama, as partículas se espalham pela região. Portanto, a circulação desses gases tóxicos polui o ar e causa danos ambientais.
- Impacto indireto: os resíduos que são removidos , cerca de 400.000 toneladas por dia, são transportados em caminhões de pequeno e grande porte. Por minuto, esses veículos consomem cerca de 3l de diesel, contribuindo assim para emissão de gases de efeito estufa.
Considerando a crescente demanda pelo metal e que o Chile é um dos principais exportadores de cobre, a tendência é que isso piore.
Problemas de saúde para os trabalhadores
Os efeitos da extração estão por toda parte, até mesmo naquilo que não se vê.
No ar, a poluição está presente nas áreas de extração , tornando um simples respirar algo bem prejudicial à saúde.
Logo, não é raro ver mineiros com problemas respiratórios e enfraquecimento do sistema imunológico. Isso piora com a exposição ao frio e vento na hora de dormir nas tendas montadas no deserto.
Em alguns casos, trabalhar na extração e refinamento dos metais pode gerar danos irreversíveis à saúde.
Mudanças nos ecossistemas e perdas na biodiversidade do Atacama
O Salar do Atacama, um dos locais mais ácidos do mundo, sempre abrigou os flamingos andinos. Nas lagoas, as algas siliciosas eram alimentos para esses animais e a lama servia para construir seus ninhos.
Com o avanço da mineração na região, algumas lagoas ficaram comprometidas e, consequentemente, prejudicou a sobrevivência dos animais.
Hoje, estima-se que apenas 1000 flamingos habitem na região, sendo que nos anos 80 eram quase 12.000. É uma redução assustadora, mas que reflete bem a gravidade das mudanças ambientais.
Mudanças causadas pela mineração no Atacama:
- diminuição de espécies nativas
- deformações da crosta terrestre
- aquíferos mais compactados
- perda de permeabilidade e porosidade no solo
- redução do nível das águas subterrâneas
Em resumo, a biodiversidade sofreu alterações significativas!
Deslocamento de comunidades locais
A extração de lítio, que deveria gerar progresso econômico, gerou deslocamento geográfico dos povos andinos e mais precariedade na qualidade de vida.
Isso porque, com a extração das águas subterrâneas pelos mineiros, as pequenas comunidades agrícolas do entorno precisaram se deslocar por conta da falta de água e perdas na biodiversidade.
Em outros casos, famílias cederam suas terras para extração do lítio, em contrapartida recebem uma pequena porcentagem no lucro (bem pequena mesmo).
Dessa forma, a expansão da mineração no Deserto do Atacama prejudicou a subsistência de comunidades indígenas que viviam na região, provocando o êxodo de famílias.
Atualmente, muitas dessas pessoas vivem em condições precárias e dependem do turismo para sobreviver.
Como o turismo sustentável está se adaptando?
Na tentativa de minimizar o impacto da mineração no Deserto do Atacama, diversas ações governamentais e de ecoturismo têm sido aplicadas.
De um lado, o governo chileno tem buscado mitigar os efeitos da mineração através do Instituto Nacional de Lítio e Salinas (Ilisa) , inaugurado em janeiro de 2025.
O Ilisa foi criado para desenvolver tecnologias sustentáveis na extração do lítio. Logo, suas pesquisas buscam melhorar o reaproveitamento de materiais na produção e descarte do lítio , bem como promover melhor qualidade de vida para os povos da região.
Na outra ponta, o ecoturismo tem feito a sua parte, promovendo passeios que respeitam a natureza e as comunidades locais. Assim, tem incentivado práticas mais sustentáveis e promovido a educação ambiental para turistas e operadores de turismo.
Caso real: a adaptação do tour Salar de Tara para Rota dos Salares
Considerado um dos passeios mais tradicionais no Atacama, o Salar de Tara é o 2º maior salar do Chile. Ele fica a 4 mil metros acima do nível do mar, abriga um grande lago salgado e é o território preferido dos flamingos.
As paisagens desse lugar são incríveis, mas infelizmente não é possível visitar (por enquanto!).
Diante da expansão da mineração no Deserto do Atacama, a área foi fechada para recuperação do ecossistema e reprodução de flamingos.
Agora, o antigo tour pelo Salar de Tara deu lugar à Rota dos Salares.
Qual a diferença na Rota dos Salares?
A Rota dos Salares é um dos principais roteiros do Atacama e combina o que restou do roteiro do Salar de Tara com novas paradas ecológicas e culturais. Em seu roteiro, inclui passeios no Salar de Pujsa, Salar de Quisquiro e Salar de Aguas, além das paradas em Laguna Diamante, Mirante de Vulcões, Laguna Negra e Monjes de La Pacana.
A beleza de cada lugar é tão surreal que é impossível esquecer essa experiência!
Ficou animado(a) para conhecer os detalhes desse tour?
Confira nosso artigo especial: “Salar de Tara ou Rota dos Salares?”
Conclusão
Mesmo com todos os desafios apresentados pelo impacto da mineração no Deserto do Atacama, as iniciativas governamentais e do ecoturismo apontam um futuro animador.
Pesquisas ambientais, passeios na natureza combinados a ações de conscientização ambiental e práticas de ecoturismo são algumas das ações que têm ajudado a minimizar os danos ambientais e sociais na região.
E você, como turista responsável, pode fazer parte dessas ações visitando o Atacama de forma sustentável !
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